EsperanSar- A arte de construir dias melhores! (texto inscrito no Prêmio Jovens Inspiradores)





EsperanSar: A Arte de Construir Dias Melhores*


Há 50 anos já era dito que o Brasil seria o país do futuro. Mas que futuro? Cruamente visto o festejado futuro parece mais uma repetição incessante do passado de cinco décadas atrás. Alardeia-se um crescimento econômico que, apesar de mensurável, segue sendo obtido com base na exploração descarada de nossos recursos naturais e, por que não dizer? Também de nossos recursos humanos. O partido dos operários subiu ao poder, mas lá mantém a mesma alcateia que lhe oprimia e ainda oprime milhões de brasileiros. De oprimido a opressor, quanto custa?          
Crescimento econômico sem distribuição de renda é apenas latifúndio produtivo bem monitorado. Império que pode até mudar de dono, mas permanece com a mesma estrutura que faz reis e súditos, patrões e empregados, pais e filhos. Cria-se cada dia mais políticas públicas que se multiplicam em programas sociais atenuantes pobreza extrema, mas geradores extrema dependência. Para sacar a incoerência basta comparar os investimentos feitos em Bolsa Família, Brasil Carinhoso, Copa do mundo e Olimpíadas, com o orçamento anual da educação. Parece piada, mas é só política. Continuamos no pão e circo.
O marketing com certeza melhorou. Somos a sexta maior economia do mundo, uma das maiores rendas per capta e  PIBs do planeta, dizem que hoje crescemos mais que os EUA e a Europa. Mas a quem isso interessa? Quanto disso tudo realmente nos beneficia? Pagamos IPTU, IPVA, INSS, PIS, COFINS, Imposto de renda, mas temos arrepios só de pensar em um dia depender de um hospital público.  
Você dever estar se perguntando por que, dentro de um panorama tão pessimista (que considero apenas realista), eu ainda acredito o Brasil possa ser transformado? Porque o primeiro passo para superar uma situação insatisfatória é reconhecer-se nela. E também porque, perdoem o clichê, eu acredito na nossa Gente. Não somos apenas bichinhos indefesos diante de um sistema hostil. Mas é assim que querem que a gente se sinta.
 Não acredito naquela gente que vende o voto por 100,00 e vive mais quatro anos de esmolas do governo. Mas creio naquela Gente que, mesmo depois de uma rotina estafante de trabalho, ainda encontra tempo de montar uma ONG para ajudar outras pessoas e acaba ajudando a si mesma. Não acredito mais em qualquer representante público que faça vista grossa pras falcatruas das empresas que apoiam sua campanha,    mas sim na  candidata que recusa apoio de empresários por questões ideológicas, mesmo sabendo que perderá a eleição.
Eu sei que esse é um papo chato. Melhor seria tomar cerveja e  cantar a ultima música  do Michel Teló? Se falar de transformação social eu canto sim. Quem disse que transformação social tem de ser coisa chata ou sofrida?  “Há que endurecer-se mas perder la ternura jamas!Também não acredito mais naquela gente que diz que as coisas nunca se resolverão ou só vão se resolver com uma guerra, mas sim na Gente que vai transformar o Brasil aos poucos, com sólidos trabalhos que acontecem todos os dias com mais eficiência, sem tanto estardalhaço.
Os 50 anos em 5 do Juscelino Kubitschek, o espetáculo do crescimento do Lula e tantos outros slogans megalomaníacos foram suficientes pra me mostrar que nenhuma mudança social consistente vem de cima pra baixo, como algo externo a população, mas acontece de baixo pra cima, só chegando  ao topo quando suas bases forem fortes o suficiente para ali se manterem.      
Nosso potencial de gerar transformações no campo social é imenso, mas precisamos entender que transformar é uma questão de trans-formar. Unir forças em direção as mudanças desejadas. .Apostar na diversidade dos grupos como o fator chave para seu sucesso, não como causa de desunião.  Minha experiência em projetos sociais tem mostrado que as comunidades geralmente possuem quase todos os recursos que precisam para ir adiante, apenas muitas não sabem integra-los e converte-los em ação. Esperam que alguém o faça por elas.
Isso porque uma longa tradição em sistemas fascistas e paternalistas nos leva a esperar por alguém que vem de fora para mudar o que não nos satisfaz. Um salvador ou um grande herói que tantos já tentaram ser sem sucesso. Essa mesma tradição nos leva a pensar que diferença é sinônimo de conflito e diversidade de confusão, pois  nos padronizando fica mais fácil controlar a todos. Muitos controlados por um é a máxima que tem regido nossos sistemas de governo até então.
Tendo em vista esse panorama, aproveitar o potencial do Brasil no campo social depende de nossas escolhas como indivíduos e grupos, não mais de crescimento econômico, ajuda externa, programas governamentais ou qualquer outro bode expiatório que utilizamos para nos desresponsabilizar. Se continuarmos esperando um  líder que nos liberte dessa condição e nos leve a alguma “terra prometida, mais uma vez votaremos, acreditaremos, nos sentiremos ludibriados e, ao fim, nos veremos novamente no mesmo lugar, como resultado da pobreza sociopolítica que tem nos caracterizado até então.   
E você deve estar se perguntado: existe outro caminho?
Certamente existe. Mas não é fácil nem confortável. Precisamos nos sentir incomodados o suficiente para abrirmos mão desta postura passiva que troca um ano inteiro de opressão por quatro dias de carnaval. Precisamos é de lideranças que dia a dia auxiliem os grupos e comunidades a olhar para si próprios e focalizar o que realmente tem de precioso que possa leva-los a novos começos. Mas que lideranças são estas a não ser nós próprios? Precisamos suportar o peso da responsabilidade sobre nossos próprios destinos e o caos de não termos respostas imediatas para seguir construindo. Trans-formar uns aos outros com os talentos que possuímos ao invés de  comprar algo pronto de mais um suposto dono da verdade.
 Aproveitar nossa imensa capacidade de mobilização sem foco, reponsável por disseminar maciçamente fenômenos irrelevantes como o “Ai Se eu Te Pego”, a “Luiza do Canadá” e o Tchun-Tchun-Chá, para ações que realmente valham a pena. Voltar a compreender instituições públicas  como mecanismos de articulação democrática para transferência de recursos, e não apenas como corjas da quais não fazemos parte porque somos decentes. Enquanto nos trancamos em casa, guardados por deus, contando o vil metal que nos sobra após todos as arrecadações não retornáveis, dezenas de secretarias e fundos de ajuda humanitária encerram seus orçamentos anuais quase sem propostas.   
Definitivamente o problema não é dinheiro, como acreditávamos até pouco tempo atrás. É a falta de organização e de proposições sérias para resolver nossos problemas sociais.  Não podemos mais sentir nossa esperança como algo alheio a nós, precisamos trazê-la para dentro de nossas ações. Conjugar o verbo Esperançar como sugere Paulo Freire em sua Pedagogia do Oprimido, que traduzo como a arte de construir dias melhores à partir de nós, do que somos, do que fazemos, de nossas trocas, erros e acertos.
Por isso proponho uma nova grafia para esta palavra: ESPERANSAR com S de Sustentabilidade, a partir da certeza de que cada grupo humano possui condições para sustentar seus membros de maneira digna e satisfatória. Alguns, no entanto, encontram-se momentaneamente desempoderados disto devido a situações de opressão/segregação historicamente construídas   
  Somos mais do que julgamos, mas nos permitimos muito menos do que realmente poderíamos. Mesmo assim seguimos, e o resultado desta caminhada poderá ser medido não pelo placar geral, mas por milhares de trajetórias que determinarão destinos diferentes para cada região, grupo ou comunidade, de acordo com o quanto acreditaram e investiram em futuros novos.   Em cada resistência mora o poder de articulação para fazer na próxima década fazer um Brasil. Em cada subserviência mora o perigo de continuar incessantemente repetindo o passado, em um país onde o desejado futuro nunca chega.
Com que país você mais se identifica?

* Observação: partes do texto foram alteradas do original inscrito no Prêmio Jovens Inspiradores para adequar-se a produções posteriores.

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